Um estudo publicado no mês passado na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews e realizado por pesquisadores da University of Sydney da Austrália sugere que as concentrações de THC no sangue e na saliva são indicadores fracos e inconsistentes de danos induzidos pela maconha.
A autora principal, Dra. Danielle McCartney, da Lambert Initiative for Cannabinoid Therapeutics, explicou que “concentrações mais altas de THC no sangue foram apenas fracamente associadas ao aumento de prejuízos em usuários ocasionais de cannabis, enquanto nenhuma relação significativa foi detectada em usuários regulares de cannabis”.
“É claro que isso não sugere que não haja relação entre a intoxicação por THC e prejuízos motores. Isso está nos mostrando que o uso da concentração de THC no sangue e na saliva são marcadores inconsistentes dessa intoxicação. (…) Nossos resultados indicam que indivíduos sem prejuízos podem ser erroneamente identificados como intoxicados por cannabis quando os limites de THC são impostos por lei. Da mesma forma, os motoristas que são prejudicados imediatamente após o uso de cannabis não podem se registrar como tal”, disse McCartney em um comunicado à imprensa.
Para o estudo, os pesquisadores revisaram dados de 28 publicações envolvendo o consumo de formas ingeridas ou inaladas de cannabis e, em seguida, caracterizaram as relações entre as concentrações de THC no sangue e na saliva e o desempenho de direção ou habilidades relacionadas à direção, como tempo de reação ou atenção dividida. Para consumidores ocasionais de cannabis, foram observadas algumas correlações significativas entre as concentrações de THC no sangue e fluido oral e deficiência, mas os pesquisadores determinaram que a maioria dessas correlações era “fraca” em força.
Nenhuma relação significativa entre a concentração de THC no sangue e o desempenho ao dirigir foi observada para consumidores “regulares” de cannabis – ou aqueles que usam cannabis semanalmente ou com mais frequência. Os pesquisadores também descobriram que a forma como os indivíduos “chapados” se autorrelataram também estava fracamente associado a prejuízos.
O Diretor Acadêmico da Lambert Initiative, Professor Iain McGregor, explicou que os consumidores de maconha inexperientes “podem ingerir uma grande dose oral de THC e ser completamente incapazes de dirigir, mas registram concentrações extremamente baixas de THC no sangue e fluido oral”, enquanto os consumidores experientes “podem fumar um baseado, mostram concentrações de THC muito altas, mas mostram pouco ou nenhum prejuízo”.
“As concentrações de THC no corpo claramente têm uma relação muito complexa com a intoxicação”, disse McGregor em um comunicado. “A relação forte e direta entre as concentrações de álcool no sangue e a dificuldade de direção encoraja as pessoas a pensar que tais relações se aplicam a todas as drogas, mas certamente não é o caso com a cannabis”.
A inovação com matéria vegetal chega a Romeo Ferraris ao introduzir fibra de cânhamo na carroceria do carro esportivo Alfa Romeo Giulia ETCR. A empresa automobilística é uma equipe italiana de tuning e corrida sediada na cidade de Milão. Romeo Ferraris compete desde 2016 na TCR International Series, uma competição internacional de carros de turismo.
A empresa e equipe de competição se caracteriza pela grande inovação técnica que levou à final do campeonato PURE ETCR em meados de outubro: a carroceria do carro Giulia ETCR utilizou componentes de fibra de cânhamo pela primeira vez na competição.
Este projeto inovador que utilizou o cânhamo como matéria-prima no automóvel, envolveu várias empresas italianas como o fornecedor de materiais Fibertech Group, que por sua vez colaborou com as empresas Linificio e Canapificio Nazionale, bem como com a Bercella. Este grupo foi o responsável pelo design pioneiro que construiu a versão da carroceria inteiramente em fibra de carbono.
O Giulia ETCR da Romeo Ferraris monta algumas partes da carroceria que são feitas de um tecido denominado “cânhamo de cetim turco” (MJ 404/100). Cada vez mais, a experimentação está sendo feita com fibras de origem vegetal para dar-lhes mais aplicações na indústria automotiva. Estas fibras vegetais apresentam inúmeras vantagens graças à sua eco-sustentabilidade, além de possuírem valores de peso adequados, são muito elásticas e de maior resistência que a fibra de vidro (comparável ao carbono), e que nos últimos tempos é o material padrão no mundo da corridas de carros.
A empresa está alinhada com a filosofia PURE ETCR, a nova competição de veículos elétricos que busca novas tecnologias de propulsão que sejam generosas com o meio ambiente e temperadas com a mobilidade do futuro. O PURE ETCR é um campeonato privado e experimental que veio para ficar e ser cada vez mais importante no mundo das competições.
O organizador deste campeonato, Discovery Events, pensa em várias iniciativas sustentáveis, como escolha dos locais de corrida, logística, fórmulas de recarga dos carros, redução ou menos impactos por consumíveis, bem como pneus.
A empresa Romeo Ferraris utilizou a fibra de cânhamo no concurso PURE ETCR, uma inovação em materiais que veio para ficar e somar.
“Estamos muito orgulhosos de poder anunciar esta inovação técnica para o final da temporada no PURE ETCR. O uso de fibra de cânhamo em alguns componentes da carroceria demonstra, por um lado, nossa busca constante por melhorias e inovações para o projeto Giulia ETCR, e por outro lado, a vontade de oferecer uma contribuição concreta para a eco-sustentabilidade, a área onde o automobilismo desempenha um papel importante em termos de desenvolvimento futuro. Em Romeo Ferraris decidimos imediatamente aceitar o desafio de um campeonato como o PURE ETCR, com carros totalmente elétricos que funcionam como banco de provas para soluções que em breve poderemos encontrar nos veículos do cotidiano. Além da frente estritamente motorizada, esse processo pode ocorrer no desenvolvimento de materiais de ponta”, afirma Michela Cerruti, diretora da equipe Romeo Ferraris.
Por outro lado, Massimo Bercella, CEO da Bercella Srl, diz: “Estamos orgulhosos de ter desempenhado nosso papel na transição que levará a um futuro mais verde, algo que o automobilismo não pode mais ignorar em seu papel de laboratório de alto nível para as tendências que constituirão a mobilidade nas estradas de amanhã. Os compósitos constituem a nossa experiência empresarial e ver a sua mudança para materiais e técnicas de processamento cada vez mais sustentáveis confirma-nos como pioneiros das novas iniciativas que constituem o nosso presente e que teremos a oportunidade de nos desenvolvermos mais profundamente no futuro”.
O Diretor de Marketing do Grupo Fibertech, Gianpaolo Coppi, acrescenta: “O Grupo Fibertech tem o orgulho de participar desta iniciativa voltada para o desenvolvimento eco-sustentável, que também buscamos em materiais tradicionais como carbono livre de solventes”.
O cânhamo volta como matéria-prima para indústria automotiva
A planta do cânhamo tem muitas utilizações, uma delas é a sua utilização como matéria-prima ecológica, amiga da natureza, podendo ser utilizada na fabricação de veículos.
O cânhamo e o setor automotivo podem andar de mãos dadas. Uma combinação que une natureza e tecnologia, e que já é uma realidade graças às características desta versátil planta. A produção correta do cânhamo produz materiais que se comportam de maneira semelhante aos do carbono. Comportamento que faz do cânhamo um destaque no setor automotivo. O material produzido pela planta é muito resistente, e já é e é utilizado como uma verdadeira alternativa de origem vegetal e inesgotável.
O carro apresentado por Henry Ford: Hemp Body Car ou Soybean Car
Tudo começou em 1941 com o visionário construtor de carros Henry Ford. O ilustre fabricante apresentou o modelo da Ford denominado Hemp Body Car ou Soybean Car. O veículo foi construído inteiramente com materiais produzidos a partir de fibras de cânhamo e soja. O veículo também consumia etanol feito de semente de cannabis e, embora não fosse produzido em massa, era a base para o uso do cânhamo nessa indústria.
No ano passado foi apresentado o supercarro Torq GP desenhado também na Itália, mas desta vez na cidade de Torino. Este poderoso carro esportivo de 600 cavalos de potência usava uma liga de cânhamo para sua fabricação, junto com um suprimento de combustível também obtido da planta. Os construtores italianos criaram um carro de cannabis, com ótimo desempenho, além de ser muito sustentável; um chassi com 75% de cânhamo e ótimo desempenho esportivo.
O mapeamento genético de plantas aumentou o rendimento, a resistência a doenças e a tolerância ao estresse em cultivos agrícolas. Agora, cientistas em Israel estão aplicando essa tecnologia à cannabis. Ao rastrear o genoma das cepas, essa técnica pode revolucionar o melhoramento genético e gerar uma nova onda de variedades.
Os avanços no sequenciamento genético da cannabis estão tornando a classificação das variedades mais precisa. Em vez de se basear na altura da planta, formato da folha e nas palavras dos bancos de sementes, os cultivadores de um futuro próximo serão capazes de acessar a impressão digital genética da cannabis (CGF) de uma determinada variedade.
Este marcador biométrico de cada variedade, considerado revolucionário para a indústria canábica, irá melhorar a investigação científica, garantir os direitos dos criadores (breeders) e ajudar os consumidores. Continue lendo para descobrir quem desenvolveu esta tecnologia inovadora e como ela definirá o panorama da maconha no futuro.
Israel: um polo de inovação da maconha
Israel e a cannabis têm uma relação especial. Os pesquisadores das universidades do país foram os primeiros a descobrir o THC e os componentes-chave do sistema endocanabinoide. Atualmente, empresas israelenses de pesquisa e desenvolvimento estão analisando como certas misturas de terpenos afetam a inflamação nos pulmões e o potencial da combinação de canabinoides e cogumelos para certas doenças.
Em meio a essa enxurrada de inovações, uma das empresas pioneiras de cannabis de Israel descobriu uma maneira de classificar biometricamente as variedades de cannabis. Pesquisadores da Tikun Olam Cannbit, com o apoio do Laboratório de Metabolismo Vegetal do Instituto de Pesquisas da Galileia (MIGAL), concluíram recentemente o desenvolvimento de um sistema interno usando essa tecnologia.
O geneticista da empresa, Asaf Salmon, comentou sobre a importância deste desenvolvimento, afirmando que “a determinação da identidade da planta com base no seu DNA típico permite uma identificação independente, fiável e estatisticamente válida, mais do que qualquer outro parâmetro biológico que temos tido até agora”.
A empresa está atualmente aceitando amostras de folhas de partes interessadas em Israel que desejam sequenciar suas cepas. Aqueles de outros países devem processar amostras de DNA de suas cepas antes de enviá-las para análise de CGF.
Mas ainda é cedo. A Tikun Olam Cannbit espera expandir seu sistema e oferecer a tecnologia a laboratórios e instituições em todo o mundo, permitindo que cultivadores, criadores e pesquisadores obtenham o CGF de suas linhagens mais perto de casa.
O problema das variedades de cannabis
Acessar o CGF de uma cepa ajudará a limpar as águas turvas dos sistemas de classificação atuais. Relatórios têm mostrado que os nomes das linhagens não refletem necessariamente a composição de uma cultivar em particular, levando a uma falsa sensação de diversidade no mercado. Grande parte dessa confusão surge do fato de que os nomes das cepas e seus efeitos são classificados fora dos sistemas de classificação científica e taxonômica.
O meio mais cientificamente válido de classificar a cannabis, como quimovares e quimiotipos, agrupa variedades com base em seus principais canabinoides e terpenos. Embora ajude pesquisadores e consumidores a buscarem os efeitos desejados, deixa muito a desejar quando se trata de genômica, um campo de estudo vital para o entendimento científico da cannabis, bem como para projetos de criação comercial.
Sequenciar a genética de cada “cepa” restaurará o significado e a função dessa peça-chave do léxico da cannabis. Em vez de depender de milhares de sementes rotuladas como “Hindu Kush” para realmente serem dessa linhagem, desenvolvendo folhas de folíolos grossos e produzindo um grande efeito, os criadores e cultivadores logo poderão comprar sementes com um CGF que prometa essas características.
Ter a sequência genética de uma variedade disponível para todos substituirá o boca a boca e o marketing, abrindo as portas para um mercado mais transparente e baseado em evidências.
Sequenciamento da maconha: um benefício para os criadores (breeders)
Por décadas, os dados qualitativos dominaram o campo do cultivo de maconha. Embora a proibição tenha forçado os cultivadores a irem para a clandestinidade, eles conseguiram criar variedades atemporais que muitos fumantes continuam a admirar com saudade. Os jardineiros qualificados por trás dessas variedades usavam seus olhos para avaliar a forma e a produção, suas papilas gustativas para analisar perfis de terpeno e suas mentes para avaliar os efeitos psicotrópicos. Eles guardaram os exemplares que apresentavam as qualidades mais interessantes e os cruzaram com outros que se encaixaram bem.
Embora essa maneira milenar de criar híbridos funcione, não é a mais eficiente. A moderna e multibilionária indústria da maconha está exigindo a precisão e a eficiência de uma abordagem quantitativa. Embora em muitos dispensários legais você ainda encontre ideias ultrapassadas de variedades “indica” e “sativa”, a ciência da cannabis lançou as bases para uma revolução quantitativa.
Estamos prestes a entrar na era do perfil fitoquímico preciso no ponto de venda e do sequenciamento genético no mundo da criação.
A genômica agrícola abriu caminho para melhores safras de alimentos. O sequenciamento da genética de certas espécies tem permitido aos produtores selecionar e desenvolver variedades de elite que oferecem alto rendimento, resistência a pragas e tolerância ao estresse ambiental. A proibição criou um período de latência entre o desenvolvimento dessa tecnologia e sua aplicação na maconha, mas isso está prestes a mudar.
Os avanços na genômica da cannabis já identificaram genes específicos que codificam enzimas que influenciam o perfil fitoquímico de uma cepa. Por exemplo, os genes que codificam a enzima THCA sintase causam a conversão de CBGA (o “canabinoide pai”) no THCA, o precursor do THC. As cepas que contêm esses genes são mais psicotrópicas do que aquelas sem eles.
Mas as coisas vão muito além dos níveis de THC. Os criadores tiveram acesso a testes de laboratório durante anos para determinar os perfis de canabinoides e terpenos de seus cultivos. Mas o sequenciamento genético permitirá que eles determinem muitos dos resultados fitoquímicos de suas plantas já no estágio de muda. Mapas do genoma de cada cepa também permitirão aos criadores selecionar a genética que catalisa a criação de novos canabinoides, como o CBC.
Os dados do CGF podem melhorar a pesquisa sobre a cannabis para o uso medicinal?
Existem muitas barreiras para o bom andamento da pesquisa sobre a cannabis para o uso medicinal. À medida que a legalização continua a se espalhar por diferentes países, os cientistas estão exigindo uma compreensão mais clara da erva e como ela nos afeta, tanto positiva quanto negativamente. Para conseguir isso, os pesquisadores precisam trabalhar com amostras que estão realmente disponíveis aos consumidores em dispensários e outros pontos de venda.
Para nos colocar em contexto, os cientistas da maconha nos Estados Unidos estão restritos ao material com que podem trabalhar. A Drug Enforcement Agency (DEA) há muito tempo limita os investigadores a um único provedor legal; A University of Mississippi fornece aos laboratórios cannabis moída, congelada e em pó, uma das ervas de pior qualidade disponíveis no país.
À medida que a DEA continua a aprovar mais pesquisas relacionadas à maconha, os cientistas esperam que isso melhore a qualidade e a diversidade do material. Conforme a tecnologia CGF entra em laboratórios em todo o país, ela permitirá aos pesquisadores estudar amostras idênticas às disponíveis para os consumidores. Não estamos falando apenas de perfis semelhantes de terpenos e canabinoides, mas de material geneticamente idêntico. Isso, por sua vez, permitirá o acúmulo de dados relevantes sobre os efeitos de diferentes cepas em diferentes populações.
Grandes mudanças estão chegando
O CGF de uma cepa abrirá outras vias de reprodução guiadas geneticamente, auxiliando na seleção e no desenvolvimento da forma da flor, resistência a patógenos e até mesmo absorção de nutrientes e capacidade de colheita. Essa tecnologia mudará a maneira como cultivamos maconha. Algumas vozes da indústria são incrivelmente otimistas e sugerem que, em questão de anos, todas as cepas que atualmente produzimos irão desaparecer no esquecimento, para serem substituídas por variedades inéditas nascidas desse novo processo de seleção genética.
O sistema endocanabinoide ajuda a manter o corpo humano em equilíbrio. Desde sua descoberta, foi revelado como ele regula os neurotransmissores e apoia os efeitos da cannabis. Os cientistas estão constantemente fazendo novas descobertas nesta área, e agora alguns estão propondo a existência de um terceiro receptor canabinoide: CB3.
Já explicamos o sistema endocanabinoide (SEC) para você, mas agora vamos nos aprofundar mais nele. Junte-se a nós enquanto exploramos as novas estruturas que disputam o título do terceiro receptor canabinoide, ou CB3. O SEC regula todos os tipos de processos no corpo humano, portanto, uma possível nova adição a essa ampla rede é muito interessante!
A planta da maconha contém centenas de moléculas que, quando consumidas, causam alterações bioquímicas únicas no corpo. Especificamente, vários tipos de canabinoides e terpenos se ligam aos receptores do SEC. Uma vez que este sistema está envolvido em muitos aspectos da fisiologia humana, estudos estão em andamento para determinar se e como esses ligantes do SEC (ligantes são produtos químicos que se ligam a receptores específicos) podem ser usados para tratar certas doenças – e são.
Além disso, os investigadores continuam a examinar o SEC em busca de outros componentes anteriormente desconhecidos ou não classificados. Isso inclui a identificação de novos receptores para compostos da cannabis, que podem desempenhar um papel importante no futuro.
Abaixo você descobrirá mais sobre o SEC e aprenderá sobre os principais candidatos a “CB3”, incluindo o fascinante, mas pouco conhecido GPR55. A ciência da cannabis continua avançando rapidamente, portanto, vale a pena acompanhar essas descobertas importantes.
Introdução ao sistema endocanabinoide
Para entender melhor a importância do conceito CB3 e como o GPR55 é um candidato ideal, devemos primeiro cobrir alguns princípios básicos do sistema endocanabinoide.
O SEC desempenha uma série de funções vitais na fisiologia humana. Ajuda a regular quase todos os demais sistemas do corpo, promovendo um estado de equilíbrio conhecido como homeostase. Mas como exatamente isso acontece?
Através de uma complexa dança entre os diferentes componentes: receptores, moléculas sinalizadoras e enzimas.
Receptores canabinoides
O SEC “clássico” inclui dois tipos de receptores canabinoides: o receptor canabinoide tipo 1 (CB1) e o tipo 2 (CB2). Ambos são encontrados em muitas áreas do corpo, desde neurônios e células do sistema imunológico até células da pele e dos ossos. Localizados na superfície da membrana plasmática das células, esses receptores são ativados por moléculas sinalizadoras do SEC.
Ambos CB1 e CB2 pertencem a um grupo de receptores denominado “receptores acoplados à proteína G” (GPCR, sigla em inglês). Quando uma molécula se liga a eles, eles causam alterações em uma “proteína G” localizada do outro lado da membrana plasmática. Essa mudança inicia uma cascata bioquímica que catalisa as mudanças necessárias dentro da célula.
Moléculas de sinalização: endocanabinoides
As moléculas de sinalização do SEC são conhecidas como endocanabinoides; “endo” significa “dentro” ou “no interior”. As células produzem esses produtos químicos sob demanda, liberando-os para se ligarem aos receptores canabinoides em outras células. Por exemplo, os neurônios pós-sinápticos produzem endocanabinoides e os enviam de volta (fluxo retrógrado) através da fenda sináptica para controlar o tráfego de neurotransmissores que chegam.
Dois tipos de endocanabinoides são encontrados no SEC: a anandamida (AEA) e o 2-araquidonilglicerol (2-AG). Ao se ligar aos receptores CB1 e CB2 na superfície das células, essas moléculas causam mudanças internas que ajudam a restaurar o equilíbrio de nossos sistemas.
Curiosamente, os endocanabinoides têm uma estrutura e função semelhantes aos canabinoides produzidos pela planta cannabis (fitocanabinoides). Portanto, moléculas como o THC são capazes de se ligar aos nossos receptores canabinoides e causar alterações celulares. Tendo em vista que alguns pesquisadores consideram o SEC como um “alvo terapêutico”, os canabinoides são objeto de um número crescente de estudos por seu potencial de modular este sistema fisiológico.
Enzimas
O terceiro grupo de componentes do SEC são as enzimas. Essas proteínas produzem endocanabinoides a partir de outras moléculas quando o corpo precisa delas; um processo conhecido como síntese. Eles também os quebram rapidamente quando concluem seu trabalho, em um processo chamado degradação.
Compreendendo o endocanabinoidoma
Algumas descobertas recentes levaram os pesquisadores a identificar outros componentes do SEC. O “endocannabinoidoma”, conhecido como “sistema endocanabinoide ampliado”, inclui uma série de ligantes, 20 enzimas metabólicas e mais de 20 receptores. Essa grande adição à rede inclui componentes que estão envolvidos em vários processos, desde a sinalização da dor à expressão gênica e até a queima de gordura. Essas descobertas abrem a porta para muitos outros mecanismos pelos quais os canabinoides poderiam atuar no corpo.
GPR55: O terceiro receptor canabinoide?
Sabemos que o CB1 e o CB2 pertencem à classe dos receptores acoplados à proteína G, mas os canabinoides também se ligam a outros membros dessa grande família, incluindo o receptor 55 acoplado à proteína G, simplesmente denominado GPR55. Anteriormente, os pesquisadores se referiam a esse receptor como um “receptor órfão”, uma vez que não se sabia quais eram seus ligantes endógenos. No entanto, vários ligantes do SEC são agora conhecidos por se ligarem a este receptor, incluindo a anandamida.
Os pesquisadores isolaram e reproduziram o GPR55 pela primeira vez em 1999. Esse receptor aparece em muitos lugares do corpo. No sistema nervoso central, encontramos níveis elevados de expressão no hipocampo (uma região do cérebro envolvida na memória e no aprendizado) e no cerebelo. Esse receptor também é encontrado em locais periféricos, incluindo células do baço, do sistema digestivo e das glândulas supra-renais. Estudos também encontraram níveis elevados de expressão de GPR55 em certas células cancerosas.
Curiosamente, o GPR55 tem “baixa homologia” (uma composição genética diferente) com o CB1 e o CB2; compartilha apenas 13,5% dos mesmos aminoácidos (os componentes básicos das proteínas) com o CB1 e 14,4% com o CB2. Apesar dessa diferença genética, alguns pesquisadores concluíram que o GPR55 merece o título de receptor CB3.
Alguns estudos usam um modelo de “rato knockout” para determinar os efeitos dos canabinoides. Basicamente, sem a genética que codifica essas proteínas, os camundongos não possuem receptores CB1 e CB2. No entanto, como os canabinoides às vezes produzem efeitos nesses camundongos, os pesquisadores começaram a procurar outros receptores onde ocorrem mudanças.
Um estudo publicado no “British Journal of Pharmacology” examinou vários canabinoides sintéticos e derivados de plantas no GPR55. Os resultados indicam que a anandamida, 2-AG, CBD e outras moléculas se ligam com sucesso ao GPR55.
GPR55 e o CBD
Mas o que isso significa para os usuários de maconha? Como essas descobertas mudarão a maneira como usamos cannabis? Descobrir como os canabinoides atuam no corpo ajuda a entender suas possíveis aplicações no campo da medicina. Por exemplo, estudos estão em andamento para explorar o papel do GPR55 em relação ao CBD e à epilepsia.
O CBD ganhou fama devido aos casos de crianças que sofriam de ataques epilépticos. Agora, os pesquisadores ainda estão tentando descobrir como exatamente o CBD funciona no corpo. E acontece que o GPR55 pode ter uma função.
Mas só porque o CBD se liga ao GPR55 não significa que ele “ative” esse receptor. Na verdade, atua como um antagonista, o que significa que inibe a ação de outras moléculas que ativam o receptor. A eficácia do CBD pode ser devido à sua capacidade de bloquear temporariamente substâncias químicas que aumentam a excitabilidade dos neurônios de forma que eles não possam se ligar ao receptor GPR55.
Pesquisadores da Universidade de Lodz, na Polônia, também sugeriram que os receptores GPR55 poderiam servir como um alvo terapêutico para a síndrome do intestino irritável, um distúrbio associado a sintomas de fadiga, perda de peso, diarreia persistente e dor abdominal. Estudos estão em andamento para determinar se o bloqueio desse receptor, por meio do uso de antagonistas, pode ajudar a controlar os sintomas da doença; tornando o CBD um possível candidato.
Outros receptores acoplados à proteína G
O amplo sistema de endocannabinoidoma inclui outros membros da família de receptores acoplados à proteína G. Vamos dar uma olhada em dois deles e entender por que eles também podem se juntar ao panteão dos receptores canabinoides no futuro.
GPR18: o receptor acoplado à proteína G 18 (GPR18), também conhecido como receptor N-araquidonilglicina (receptor NAGly), é outro candidato a receptor canabinoide. Tanto o THC quanto a anandamida se ligam com alta afinidade ao GPR18, enquanto o CBD se liga com baixa afinidade. Isso significa que este receptor compartilha algumas características com o CB1. Portanto, alguns pesquisadores afirmam que o GPR18 deve ser considerado um receptor canabinoide, tornando-o mais um candidato ao título de CB3.
O GPR18 é encontrado em maior extensão nos tecidos dos testículos e do baço, e também está presente no timo, intestino delgado e células brancas do sangue. Atualmente, está sendo investigado o papel desse receptor no controle da pressão arterial e na regulação da pressão intraocular.
GPR119: esse é outro novo receptor canabinoide que, no futuro, poderá ajudar no tratamento da diabetes. Este receptor é encontrado principalmente no sistema digestivo e nas células beta do pâncreas do corpo humano. No momento, são conhecidas apenas algumas moléculas de endocanabinoide com a capacidade de se ligar a esse receptor. Os pesquisadores continuam a explorar quais fitocanabinoides modulam o GPR119 e seu papel na regulação do ganho de peso e secreção de insulina.
O receptor CB3: um assunto em evolução
Embora os pesquisadores tenham descoberto o SEC pela primeira vez na década de 1960, eles ainda estão nos estágios iniciais dessa descoberta. Hoje continuam a mapeá-lo, debatendo os termos apropriados e descobrindo exatamente como as moléculas de cannabis afetam os diferentes receptores. Também é importante reconhecer que o GPR55 e seus receptores relacionados não são os únicos candidatos ao título de CB3.
Alguns cientistas afirmam que o TRPV1 (um receptor que detecta o calor e a dor) deveria receber essa distinção, pois tanto o CBD quanto a anandamida se ligam a esse receptor.
Outro grupo de receptores, conhecidos como receptores ativados por proliferadores de peroxissoma (PPARs), também são candidatos adequados para essa posição. Eles são encontrados no núcleo das células e estão envolvidos na expressão gênica e no metabolismo da gordura. Vários canabinoides interagem com esses receptores, como o THC, o CBD, o THCV e o CBG.
Mas esses receptores são apenas a ponta do iceberg. É provável que pesquisas futuras descubram muito mais receptores que eventualmente se tornarão membros do SEC, um sistema endocanabinoide muito mais amplo do que conhecemos hoje. Essas mudanças são simplesmente a forma como a ciência funciona.
As diferentes áreas de estudo estão constantemente passando por grandes mudanças devido a novas descobertas; o que pensamos que sabemos com certeza hoje pode ser duvidoso amanhã. Nossa missão é manter-se atualizado sobre esse assunto fascinante, para que possa estar sempre informado sobre os desenvolvimentos importantes da planta, à medida que ocorrem.
O cientista e divulgador ficou interessado nas possibilidades dos fungos, seus efeitos, sua relação com os animais e as teorias evolutivas de McKenna.
Neil deGrasse Tyson, um popular comunicador científico e astrofísico mais conhecido por apresentar a série Cosmos, recentemente abordou o tópico dos cogumelos alucinógenos e sua relação com os humanos em seu podcast chamado StarTalk. O cientista e comediante Matt Kirshen, coapresentador do programa, falou por uma hora sobre vários aspectos dos fungos com o biólogo especialista em vida fúngica Merlin Sheldrake.
No programa, Neil deGrasse se interessa primeiro pelas maneiras como os fungos se desenvolvem e se reproduzem, desde esporos até micélio e sua relação com os ecossistemas. Posteriormente, o programa aborda especificamente cogumelos alucinógenos do gênero psilocybe, abordando questões como sua relação com a evolução humana com base nas teorias de Terence McKenna e o uso lúdico de alucinógenos por animais.
Ao longo do podcast, eles também discutem o caso de fungos colonizadores de outras espécies, aqueles que são capazes de alterar o sistema nervoso dos insetos para ajudá-los a dispersar seus esporos antes de morrerem completamente colonizados pelo fungo. É o caso do fungo Massospora, que coloniza cigarras causando comportamento sexual desenfreado de acasalamento durante o qual os insetos perdem parte do corpo e distribuem esporos do fungo por onde passam. Em 2019, um estudo descobriu que o cogumelo liberava psilocibina e cationína no sistema nervoso das cigarras.
O famoso micologista Paul Stamets está trabalhando para a NASA selecionando espécies de fungos que servem para terraformar a Lua ou Marte.
Paul Stamets, um cientista com longa trajetória no estudo de fungos (micologia), está trabalhando na NASA junto com outros pesquisadores para aproveitar as possibilidades dos fungos na conquista do espaço. Para Stamets, os fungos podem ser a chave para tornar o solo de Marte ou da Lua arável, e ele propõe as espécies de cogumelos alucinógenos psilocibinos como um complemento necessário para viagens espaciais.
Paul está investigando como os fungos podem ajudar a criar solo fértil fora da terra por meio da interação com plantas e resíduos gerados pelo homem. De acordo com o cientista, emparelhar fungos com plantas e resíduos humanos faz com que eles se decomponham “criando solos ricos que podem ajudar a gerar os alimentos de que os astronautas precisam”.
O grande desafio é encontrar uma ou mais espécies de fungos que ajudem a penetrar no regolito, a poeira de asteroide que cobre a superfície dos planetas, satélites e asteroides, para torná-la arável. “É muito mais fácil pegar uma semente e cultivar sua comida do que levar uma tonelada de comida para o espaço […] É muito melhor para a natureza gerar uma carga de comida do que seu foguete carregar uma carga de comida”, explicou em entrevista à Scientific American.
Stamets também defende que os cogumelos alucinógenos façam parte da bagagem dos astronautas, como uma ferramenta útil para aliviar as consequências das viagens espaciais para a saúde mental. O cientista lembra durante a entrevista que os astronautas muitas vezes enfrentam solidão e estados depressivos durante suas longas e solitárias viagens espaciais. “A NASA e qualquer outra pessoa que trabalhe e observe a ocupação do espaço deve considerar que os cogumelos psilocibinos devem ser uma parte essencial de seu kit de ferramentas psicológicas para os astronautas lidarem com a solidão e os desafios do espaço e do isolamento”.
Para este trabalho na NASA, Stamets se define como um astromicologista. “A astromicologia é obviamente um subconjunto da astrobiologia, então a astrobiologia seria o estudo de organismos biológicos extraterrestres. Assim, a astromicologia seria o estudo da biologia dos fungos em todo o universo. E acho que é inevitável que um dia encontremos fungos em outros planetas”, disse Paul Stamets.
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